Momentos de Transição: Processos de Transformação Pessoal

Em 28/04/2016 , Comments

Embora existam algumas pessoas que não conhecem os significados e sentimentos associados às palavras fracasso, frustração, insatisfação, desorientação, decepção, depressão, etc; ainda assim parece fazer parte da existência humana a experiência de alcançar alguns objetivos e não alcançar outros. Caso, ainda assim, uma pessoa não possua esta vivência, no mínimo deve ter observado diferentes níveis de facilidade e dificuldade de atingir alguns sonhos ou metas.

Outra situação significativa é a constatação das diversas "mortes e renascimentos" simbólicos pelos quais passamos ao longo de nosso crescimento e processo de sociabilização. De fato, ao fazermos uma retrospectiva de nossa vida, percebemos que nossas formas de ser e expressar quando crianças, adolescentes, jovem maturidade, muitas vezes, já deixaram de existir ao cederem lugar a outros comportamentos, sentimentos, preocupações, etc. Ocasionalmente, porém, percebemos que formas passadas coexistem com formas presentes pacificamente ou mesmo em conflito.

Comparando nossa estrutura interior, é quase unânime a evidência de que os desejos e vontades (conscientes e inconscientes) são nossa força propulsora de abordagem da realidade. Essa "pressão" interior para ser expressa no mundo através da individualidade e identidade de cada um de nós, em algumas pessoas, foi tão aprisionada que acabou por manifestar formas diferentes de canalização. Esta é uma das modernas formas de compreensão de agressividade, sintomas e de algumas doenças.

Oriundo de diferentes culturas, temos um provérbio que pode ser expresso assim: "Deus escreve certo por linhas tortas". Além disso, a realidade dos fatos acaba, quase sempre, comprovando a seguinte percepção: quantas não são as pessoas que conhecemos ou ouvimos falar que, exaustas e cansadas de combater seus "dragões", aliaram-se a eles e obtiveram sucesso inimaginável? O homem que vendia "fracassos"; o homem que vende "ignorância", um doente que se tornou curador, um alcoólatra que resgata outros do vício, um empresário "quebrado" que ajuda a salvar outras empresas, etc.

Comparando nossa cultura com o desenvolvimento do ser humano, talvez possamos afirmar que ela ainda seja bastante jovem! Senão imatura. Considere os principais problemas que vivemos atualmente e perceberá que nossa educação não nos proporcionou a habilidade, o discernimento, a sensibilidade e a flexibilidade necessárias para conviver de uma forma menos tensa com este mundo que, há séculos, permanece em constante transformação. No passado, entretanto, a velocidade das mudanças pareciam ser bem menores. A grande crise não são as transformações do ambiente - este sempre se alterou - é a inadaptabilidade de nossas formas de perceber e entender o mundo (os nossos paradigmas). Além do mais, muitas das mudanças que estamos presenciando foram previstas, quantos se prepararam antecipadamente?

Um dia, em uma palestra, durante os instantes reservados às perguntas, recebi a seguinte: - "Eu tenho um filho de nove anos que destrói todos os seus brinquedos. Tenho dito a ele, repetidamente, que não comprarei mais brinquedos se ele não aprender a cuidar bem dos que possui. Mas você sabe como a gente é, eu não resisto, compro outro e a história se repete... O que você tem a dizer sobre isso?" Respondi a ela que teria, de fato, três respostas para aquela pergunta: - "A primeira, talvez a mais importante, é que você não deve acreditar em nada do que eu disser, pois não tenho filhos"; - "A segunda é que eu também fui uma criança que quebrava muitos brinquedos. Mas eu não os jogava no chão para saber se resistiriam ou quebrariam. Eu observava, comparava, desmontava, etc. Acredito que a criança que quebra brinquedos é, em geral, aquela que busca entender a estrutura de funcionamento do mundo material e que, quebrar brinquedos, seja apenas uma fase de comportamento não intencional (fase de exploração) existente dentro de um processo maior que podemos chamar de compreensão do funcionamento do universo físico - suas possibilidades, suas limitações. Enfim avancei desenvolvendo uma boa habilidade de consertar brinquedos. Concluo, ao observar outras crianças que quebram brinquedos, que são as mesmas que, num futuro, consertam e até constróem. Então você poderia entender o seu dinheiro como sendo investido em proporcionar campo de exploração para seu filho aprimorar a habilidade manual e desenvolver a capacidade motora e de observação".

"A terceira resposta, talvez te incomode um pouco, porém possa ser a mais significativa para você: de todas as ocasiões que você repete aquele tipo de repreensão, dias, situações, lugares e brinquedos diferentes; a única coisa que se mantém constante é a sua incongruência! Pense bem, o que você está realmente ensinando, inconscientemente, a seu filho é que os adultos não fazem o que dizem, e que não dizem o que fazem. Você, nas entrelinhas do seu comportamento está ensinando esta criança a te manipular! Então, sugiro que, de agora em diante, nunca mais diga que `não vai mais dar brinquedos' ou nunca mais dê enquanto permanecer afirmando aquela frase!"

Estas e outras incoerências de nosso universo cultural atual são apreendidos inconscientemente, quotidianamente. Observe um pai que diz a uma criança que é errado mentir. Que até castiga quando ocorre este fato. Toca o telefone, alguém procura aquele homem e ele orienta a criança dizer que não está em casa. Como voces imaginam que isso é capturado pela jovem compreensão da criança? Pense nos índios americanos que não tomavam uma decisão sequer sem projetar no futuro as consequências até a sétima geração seguinte. Talvez possamos, agora, chegar à conclusão que nossas formas de lidar com o mundo ainda sejam pouco adequadas para construí-lo melhor.

Enfim, não recebemos um manual de instruções detalhado e fidedigno a respeito de como nos comportar enquanto indivíduos ou enquanto povos (cultura).Nesse processo de tentativa e erro, lentamente, vamos aprendendo a agir de forma mais efetiva e racional - mas como identificar os limites? Explorando, experimentando, testando, errando, consertando e, finalmente, aprendendo.

Com tantas mudanças a serem feitas em nossa compreensão e ação na realidade, posso quase garantir que as respostas não estão prontas. Cabe a nós encontrá-las. Cabe também a nós não tentar perpetuá-las, pois algumas serão inadequadas para o futuro. As evidências gritam aos olhos, tantas novas "doenças": agorafobia (Síndrome de Pânico), crise de meia-idade, Síndrome do Ninho Vazio, inadaptabilidade da terceira idade, marginalização, desemprego, falências, dependência química, fracassos, dependência psico-emocional, trabalho obsessivo, separações, alergias e males crônicos, obesidade, estresse, câncer, suicídios, doenças terminais, etc. Campos nos quais nossa medicina apenas engatinha ou, ainda, nem sequer abriu os olhos...Toda esta confusão ainda não apresentou a sua ordem subjacente. Quem sabe as soluções sejam mais simples e gerais do que ainda possamos imaginar. Sabemos, hoje, que já existem muitos pesquisadores explorando estes horizontes.

Futuramente, acredito que os médicos, dentistas, psicólogos terão muito mais o papel de educadores ao praticar a saúde preventiva, habilitando as pessoas a prevenir e apoiando grupos em suas buscas de cura de indivíduos.

Pensemos bem, os dependentes químicos são culpados ou vítimas? O consumo de substâncias entorpecentes começa no seio do lar: álcool, cigarro, calmantes, estimulantes, etc. Dentro de casa, ainda, gozando de maior intimidade e fidelidade ainda, entra, através da televisão, toda uma doutrinação de como são bonitas, ricas e felizes as pessoas que bebem determinada bebida ou fumam "aquele" cigarro. Condicionamento feito, muitas vezes, numa época em que a criança ainda possui pouco discernimento para fazer as próprias escolhas.

Nesta perspectiva, este mundo de fantasias talvez ofereça uma solução mais simples do que encarar todas aquelas incoerências e mentiras do mundo adulto. Somos todos responsáveis. Os co-dependentes que o digam. Em última instância, pensando naquelas pessoas que são capazes de viver toda uma existência sem um mínimo impulso de buscar e se expressar, talvez os dependentes tenham até alguma "sorte": mesmo sem ter encontrado uma forma saudável ou a maneira socialmente adequada para construir um mundo melhor, acabaram por expressar aquela "pressão" interior adotando comportamentos marginais. Nestes casos, o vício pode ser encarado como um sintoma, uma busca inconsciente, pouco adaptada socialmente, de mudar as coisas - pelo menos em fantasia.

Ainda considerando todos aqueles insucessos acumulados por nossas formas de lidar com os "problemas" recentemente citados, lembrando o quanto nossas ciências se aprimoraram nos últimos anos, podemos sonhar com um futuro, não muito distante, no qual estes "males" não serão mais limites para nossos comportamentos. Lembre-se, hoje já existem soluções para lesões de nervos; há pouco mais de duas décadas a maioria dos médicos eram categóricos em afirmar que tecido nervoso não se regenerava! Pense em quantas pessoas foram condenadas à uma existência quase vegetal por acreditar nestas afirmações!

Não obstante, sabemos que qualquer um daqueles "distúrbios" de saúde ou comportamento descritos (e ainda muitos outros) que se instalem em uma pessoa, família ou grupo acabam por cristalizar novas formas de pensar, agir, ser. Esta dinâmica pode definir novos papéis e, consequentemente, uma nova identidade. Alguns destes comportamentos são considerados incuráveis. Mas cada um já viveu a experiência de, ao longo da vida, permitir que algumas identidades mais jovens se dissolvessem para dar lugar a um nova forma de ser: uma nova identidade (mortes e renascimentos simbólicos).

© Walther Hermann

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